Mercado
Vale olhar um pouco para o retrovisor e entender o caminho que o milho percorreu nas últimas duas semanas. No dia 28 de setembro, o mercado físico já dava sinais de mudança. Em Campinas, o comprador indicava R$ 68,50 e o vendedor R$ 70,00. As cooperativas trabalhavam entre R$ 62,00 e R$ 64,00 e o milho tributado entre R$ 74,00 e R$ 76,00. O varejo ainda sustentava preços, mas a exportação já não caminhava no ritmo necessário.
De lá para cá, boa parte do que estava no radar aconteceu. Venho chamando atenção, boletim após boletim, para a perda de liquidez, aumento de ofertas e um comprador cada vez mais confortável nas negociações. O produtor ainda resistia em vender, as cooperativas tentavam sustentar preços e o mercado interno começava a encontrar alternativas de abastecimento mais competitivas.
O fundamento foi ficando cada vez mais claro. A exportação brasileira continuou abaixo do ritmo projetado, os portos reduziram indicações e o milho que antes encontrava alternativas de liquidez passou a disputar espaço no mercado interno.
Em São Paulo, o trigo fora do padrão para consumo humano ganhou espaço nas fábricas de ração, o milho paulista passou a enfrentar mais questionamentos sobre qualidade e o milho tributado aumentou sua competitividade, chegando com preços melhores e, segundo relatos de compradores, qualidade superior. O trigo acabou perdendo parte desse fluxo posteriormente, mas o movimento já havia contribuído para pressionar as negociações.
As cooperativas chegaram a reduzir entre R$ 2,00 e R$ 4,00 em uma única semana. E por quê? Porque a liquidez diminuiu. O grande comprador, com estoque e cobertura para boa parte de outubro, usou o tempo a seu favor, evitando compras maiores e trabalhando para reduzir o custo médio da ração. O varejo, que inicialmente sustentava o físico, também começou a acelerar as quedas.
Do outro lado, o produtor que havia encontrado preços melhores semanas antes passou a demonstrar mais disposição para vender, justamente num mercado com menos compradores. Portos recuados, cooperativas reduzindo indicações e cerealistas também precisando girar mercadoria. Mais milho procurando comprador, enquanto o comprador encontra cada vez mais alternativas.
No físico, Campinas recuou R$ 3,00 na indicação de compra e R$ 3,50 na de venda. As cooperativas cederam R$ 3,00 e o milho tributado, R$ 4,00. O resultado foi uma mudança importante na relação entre as pontas: o vendedor perdeu poder de negociação e o comprador ganhou tempo.
Lá fora, a CBOT passou por realizações fortes, chegando a registrar queda próxima de 4% em um único dia no fim de setembro. Na sequência, o relatório do USDA trouxe aumento de produtividade e estoques americanos, acrescentando pressão a um mercado que já vinha pesado. O dólar, que ainda mostrava força na virada do mês, recuou para a região de R$ 5,00, apertando a paridade de exportação justamente quando os embarques brasileiros já estavam abaixo do projetado.
E onde estamos agora?
O mercado interno continua pressionado (milho tributado entrando com força em SP), a exportação precisa mostrar números e temos um estoque de passagem que pode se aproximar de 20 milhões de toneladas caso os embarques não avancem no ritmo necessário.
Estamos naquele período de outubro em que, historicamente, a comercialização costuma ficar mais lenta, a liquidez diminui e as chuvas começam a ganhar importância. O comprador segue mais confortável e o vendedor encontra dificuldade para negociar.
Preços
Mercado cedeu mais um pouco….
Campinas (SP): comprador R$ 65,00 -0,50 | vendedor R$ 66,00 -0,50
Cooperativas: comprador R$ 59,00 | vendedor R$ 61,00
Milho tributado: comprador R$ 69,00 -1,00 | vendedor R$ 71,00 -1,00
Gráfico
📉 CCMX26 – O milho novembro/26 trabalha em R$ 67,84 e confirma mais uma etapa da forte correção que vínhamos acompanhando desde o rompimento de R$ 75,55. O contrato perdeu sucessivamente as regiões de R$ 74,25, R$ 73,41, R$ 71,19 e R$ 69,00, chegando agora à mínima de R$ 67,65.
Cenário provável: enquanto permanecer abaixo de R$ 69,34, o novembro mantém uma estrutura de baixa. A perda de R$ 67,47 abre espaço para observar R$ 66,52 e, num ajuste mais amplo, R$ 64,33. Por outro lado, o contrato já acumula uma correção expressiva e trabalha extremamente sobrevendido, condição que aumenta a possibilidade de um repique técnico. Para mostrar uma recuperação mais consistente, precisaria primeiro recuperar R$ 69,34 e depois superar R$ 69,94/70,50.
📉 CCMF27 – O milho janeiro/27 trabalha em R$ 71,66 e continua aprofundando o movimento corretivo. O contrato saiu do antigo canal de alta, permaneceu dentro de uma estrutura descendente e rompeu sucessivamente R$ 78,56, R$ 77,46, R$ 76,35, R$ 75,11 e R$ 72,77. Agora já registra mínima em R$ 71,50, abaixo das referências que vinham sendo monitoradas.
Cenário provável: enquanto permanecer abaixo de R$ 72,77, o janeiro mantém uma leitura corretiva. A perda confirmada de R$ 71,50 coloca R$ 70,22 no radar. Para aliviar a pressão, precisa recuperar primeiro R$ 72,13/72,77 e depois avançar sobre R$ 73,58/74,24. A sobrevenda pode favorecer alguma reação técnica, mas ainda não representa mudança de tendência.
Leitura dos dois contratos
A análise confirma a sequência de alertas feitos nas últimas semanas. O novembro perdeu a base de consolidação em R$ 75,55 e foi rompendo suportes sucessivos. O janeiro deixou o canal de alta e continuou trabalhando dentro de uma estrutura corretiva.
A B3 já devolveu uma parcela expressiva do prêmio que carregava sobre o mercado físico, mas isso não significa que todo o ajuste esteja concluído. Os contratos estão extremamente sobrevendidos e podem apresentar alguma recuperação pontual, especialmente se CBOT, dólar e mercado físico deixarem de acrescentar pressão aos preços.
O ponto principal é separar uma recuperação técnica de uma mudança efetiva na tendência. O mercado precisa primeiro interromper a sequência de mínimas descendentes, preservar suportes e voltar a recuperar resistências.
Fechamento da retrospectiva
Os valores abaixo correspondem ao balanço anterior das duas semanas.
O resultado está na tela. O novembro saiu de R$ 74,74 para R$ 68,78, chegando à mínima de R$ 68,03, uma devolução próxima de R$ 6,00 por saca. O janeiro recuou de R$ 78,90 para R$ 72,85. O spread entre novembro e ESALQ, que chegou a R$ 9,20 por saca em agosto, encolheu para pouco mais de R$ 2,00 no início de outubro.